domingo, 26 de abril de 2015

Descompasso


Desde final de janeiro, vivi aceleradamente. Tive que enfrentar uma reforma total da cozinha, que havia sido invadida por cupins. E, ainda, uma reforma de um banheiro, com problemas de vazamento.
Decisões e mais decisões. Escolha e compra de materiais. Sobrevivência em casa sem cozinha. Poeira e mais poeira.
E sem ver o fim da reforma, saí para uma viagem tranquila: 14 dias inteiros dentro de um navio.
Mar quase que o tempo todo. Lindo. Calmo.
E o tempo, rendendo mais.
Hoje, fui assistir à missa. Fiquei impressionada com o número de participantes.
O padre fez um bom sermão e, no final, lembrou-nos de que o Papa Francisco sempre pede que rezemos por ele. Disse, o padre, que essas orações são necessárias não só por problemas internos da Igreja, mas também por incompreensões geradas pela preocupação constante que o Papa tem com os oprimidos, com os desassistidos.
E eu estava pensando. Se todos nós, cristãos, tivéssemos esse tipo de preocupação, com certeza o mundo seria outro.
Se todos nós que ali estávamos, entendêssemos as políticas sociais, e as apoiássemos, a vida seria outra.
Mas é difícil. Vem uma administração que incentiva o tráfego de ônibus, para que aqueles que moram longe não gastem muitas horas até o trabalho, e os proprietários de carro se opõem ferozmente.
Surgem políticas preocupadas em garantir assistência mínima à saúde nos rincões mais pobres do país, e as críticas são volumosas.
E muito mais.
Pensei em tudo isso durante a missa. No final, o padre se colocou à disposição para conversar com quem tivesse interesse.
Resolvi esperar por ele.
Ao meu lado, uma senhora que puxou conversa. Disse que estava fazendo um Curso Bíblico e que queria esclarecer umas dúvidas sobre alguns temas.
Eu lhe disse que queria trocar ideias com o padre sobre a questão que preocupava o Papa Francisco, e sobre a falta de amor que impera na sociedade. E fiz mínimas referências a algumas políticas de inclusão social.
Foi o suficiente para que ela passasse por uma transformação impressionante. Fez comentários ácidos, fortes, e terminou dizendo:
 - Mas sabe quem eu quero que suma de vez? O Lula. Esse homem é um câncer. Ele me desperta um ódio enorme. E é mau. É tão ruim, mas tão ruim, que nem o câncer que teve conseguiu levá-lo.
Fiquei pasma. 
Havíamos acabado de assistir à missa. Convocados a sermos bons pastores. A espalharmos o amor.
Desisti de esperar.
Espero que, pelo menos, ela tenha conseguido esclarecer suas dúvidas a respeito da Bíblia.