sexta-feira, 15 de maio de 2015

Museu e o mundo






Parece que o “mundo” não para em casa. Essa foi a impressão que tive ao visitar o Rijksmuseum em Amsterdam.
O museu é lindo, tanto na sua arquitetura como no seu rico conteúdo.
É realmente uma multidão que se movimenta por suas salas. E isso não ocorre num só dia. É em todos os dias, do ano inteiro. Entra ano, sai ano, e o museu tem suas salas cheias.








De crianças, a idosos. Bebês em carrinhos, crianças de mãos dadas com os pais, escolares em grupos, jovens, muitos jovens. E, ainda, muitos e muitos idosos. Sãos, e nem tanto. Caminhando bem, ou com bengalas, apoiados em “andadores”, ou em cadeiras de rodas.
Pessoas falando uma variedade enorme de línguas, todas ligadas pelo mesmo objetivo da busca do conhecimento e da beleza.
E todos muito atentos, vivenciando a magnitude das obras que atravessam séculos.




O mesmo em relação ao Museu Van Gogh, que contém a maior parte das obras do pintor que, embora tendo vivido somente 37 anos, deixou aproximadamente 900 trabalhos de beleza indescritível.
Abençoadas as mãos, e as mentes, que com suas criações atingem, tão profundamente, a alma de pessoas de todos os tempos e lugares.
Com certeza, esses artistas jamais poderiam imaginar o valor imensurável de suas obras, e nem a imensidão do interesse que elas iriam despertar.
Van Gogh que, com toda sua genialidade, conseguiu vender somente um quadro enquanto vivo, deixou um recado impressionante:
“Ainda tenho a esperança de não pintar somente para mim.”
Sua esperança não foi em vão. Ele pintou para o mundo.



Publiquei esse texto enquanto aguardava, no aeroporto de Schipol, meu vôo de volta. Hoje, 1/06, acrescentei as fotos. 





quarta-feira, 13 de maio de 2015

Viagem: altos e baixos.




Um turbilhão de ideias, com alguns textos redigidos mentalmente. Mas, em viagem, nem sempre é fácil escrever e publicar. E vive-se tantos momentos diferentes, que aquilo que já estava pronto na cabeça, acaba ficando ultrapassado.
Foram 14 dias de viagem pelo mar, de Santos a Barcelona. No último dia, acordei com um enorme sentimento de gratidão. Gratidão pela viagem maravilhosa, gratidão pela oportunidade de poder realizá-la.
E essa gratidão, acompanhada por um grande bem-estar.
Mas, de repente, esse bem-estar foi se desmanchando. A incorporação a uma excursão de sete dias, que na sua apresentação parecia algo prazeroso, foi quase um desastre. Embora passando por lugares lindos, pouco nos deu a oportunidade de vê-los e aproveitá-los. Correria, saídas muito cedo com exposição ao frio, cansaço.
Ao fim do período da excursão, senti-me como uma sobrevivente. E, o pior, com conclusões de desânimo: a velhice chegou com força total, viagens só bem próximas de casa.
Nesses momentos lembrei muito de meu pai que dizia: “boa romaria faz, quem em sua casa fica em paz”.
Liberta da excursão, fiquei com um saldo de alguns dias em Amsterdam para, juntamente com o Berto, imprimir-lhes nossos ritmo e escolhas.
E foi, então, que pude encontrar o sentido total desse passeio terrestre após o cruzeiro: nossa visita ao Museu Van Gogh.
Lugar lindo, com obras maravilhosas, diante das quais, muitas vezes, me senti como num santuário. Silêncio, concentração e enorme respeito.
Foi muita a emoção, foi forte o sentido de ligação com o eterno. 
imensa a gratidão ao artista, por tanta beleza.



sábado, 2 de maio de 2015

Histórias a bordo


Até agora, 13 dias a bordo. Desses, passamos seis sem avistar terra.
Acho uma delícia!
O conforto do navio, a presença constante do mar, sua cor linda, seu balanço suave, a programação musical. E, ainda, a percepção de que não se está com muita idade para enfrentar viagem longa. Olha-se para os lados e observa-se, com facilidade, pessoas bem idosas. Bem mais idosas do que nós dois. Todos, procurando viver bem, enquanto vivos.
1800 pessoas, juntas, atravessando o Atlântico. E com esse número tão grande, nem sempre é fácil o reencontro. Conhece-se alguém, troca-se ideias e passa-se dias sem cruzar com essa mesma pessoa. Às vezes, não se encontra mais.
A única ocasião em que o grupo é fixo é a do jantar. A mesa é a mesma, durante todos os dias, assim como as pessoas.
Isso permite um contato mais próximo e, até, o surgimento de amizades.  
As outras refeições podem ser feitas em lugares diferentes, em horários diferentes e com pessoas diferentes, a cada dia.
Isso permite que se conheça uma variedade bem grande de pessoas, com origens diversas, cada uma com sua interessante história de vida.
Arthur, Cecília, Ida, entre outros, me encantaram com suas histórias, e garantiram boas conversas.
Arthur, brasileiro, com 85 anos, viaja com sua mulher norte-americana, a elegante Silvia. Casados há mais de 30 anos, formaram uma grande família, com os 4 filhos dele, 3, dela, e os 20 netos. Conheceram-se nos Estados Unidos, onde ele, então viúvo, vivia com os filhos pequenos. Moram há muitos anos no Brasil, com os filhos lá e cá. Além desse romance interessante, o que me chamou atenção em Arthur foi seu rosto. Olhava para ele, lembrando de alguém.
Passado um tempo, identifiquei. Arthur lembrava muito meu tio Arthur, irmão da minha mãe, já falecido.
E daí, o inusitado. Entrando numa rede social, fui surpreendida por uma foto do meu tio Arthur, que havia sido colocada por um seu neto, exatamente naquele dia. Registrei-a, e ao encontrar com meu companheiro de viagem, contei-lhe o ocorrido e mostrei a foto. Então, ele me disse: seu tio é muito parecido com meu avô materno.
Cecília é uma senhora delicada, elegante e muito simpática. Pediu para sentar-se na nossa mesa, durante um almoço, e pudemos conversar bastante. É chilena, viúva, e está viajando com uma amiga. Não sei sua idade mas, por sua história, deve também ser octagenária. Teve 9 filhos, tem 28 netos e mais de 20 bisnetos. Lembrei muito de minha mãe, que teve descendência semelhante.
Cecilia, alegre, forte, me mostrou como as avós, e bisavós, dos tempos atuais podem manter o vigor e a alegria de viver.
E por falar em alegria de viver, me impressionei com a Ida.
Eu ouvira falar que, entre nós, havia uma cadeirante que estava viajando sozinha. Num final de tarde, em que estávamos aproveitando  o som de uma banda para dançar um pouco, vi uma cadeirante, com os olhos vivos e um ar feliz, acompanhando o movimento do salão. Fui falar com ela.
Ida convive desde criança com sequelas graves de poliomielite. Aprendeu a viver muito bem com seus limites. Estudou, trabalhou, criou filho e, agora aposentada, está aproveitando para viajar.
Sim, viaja sozinha. Sua cadeira é motorizada, e ela tem completa autonomia. Ainda não tem 60 anos, e sabe que, pela progressividade, terá uma piora no seu estado físico. Já está percebendo essa degeneração, mas está preparada para isso. Encontrou um médico fantástico, chamado Acary, que lhe passa muita tranquilidade. 
Nesse momento, confirmei. Esse mundo é mesmo pequeno, pois Acary é meu primo.
E Ida me mostrou, com calma, toda a força que se pode ter para se enfrentar com fé, e alegria, os limites trazidos pela vida.
Adoro cruzeiros.