quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Ócio produtivo



Anos de correria, de muito trabalho, de muito raciocínio, de decisões e resultados palpáveis.

De repente a inatividade, com a perspectiva de tempo ocioso, tranquilidade e muito lazer.

O tempo, continua escasso.

A correria, continua presente.

O lazer, numa medida menor do que a imaginada.

E os resultados? Nem sempre percebidos.

Antes de me aposentar, caminhando pelo calçadão e vendo muitas pessoas sentadas nos bancos da praia, “batendo um papo” animado, comentei mais de uma vez que precisaria aprender “a jogar conversa fora” para quando não mais estivesse trabalhando.

Queria aprender a falar por falar, trocar ideias surgidas na hora, comentar o óbvio, sem outras preocupações.

Mas não aprendi. Embora tivesse a consciência de que seria importante “jogar conversa fora”, não soube buscar um treinamento.

Por que?

Parece que a vida do trabalho nos vicia em busca de objetivos, em produção, e quando podemos nos desligar disso, temos enorme dificuldade.

O dia termina, sabemos que fizemos muitas coisas, mas como disso tudo não resultou algo visível, ou palpável, ficamos com um sentimento de frustração. Não sabemos “fazer por fazer”.

Numa ótima abordagem sobre a matéria, Anna Verônica Mautner*, na Folha Equilíbrio do último dia 02/11/2010, indaga:

“Quanto treino é exigido do homem urbano para passar do útil, do produtivo, para o à toa, o fazer por fazer?”

E afirma:

“Mudar de ser planejante, sempre cheio de objetivos e intenções, para um ser capaz de atividades com vista não para o ‘amanhã’ e sim para o ‘aqui agora’ demanda treino, consciência e empenho.”

É verdade. É preciso “desenvolver aptidão para o fazer por fazer, o estar por estar, sem qualquer ligação com fins outros que não o instante que se está vivendo.”

E, sobretudo, sem qualquer tipo de preocupação. Agir com leveza, como as crianças. Viver sabiamente o momento presente.

Será esse o verdadeiro “ócio produtivo”?


*(Psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo)


10 comentários:

  1. Acho que até pra isso precisamos nos acostumar.

    estamos acostumados à rotina e de repente tudo muda. Sentimos!

    beijos,tudo de bom,chica

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  2. SABE HELOÍSA ESTOU ESPERANDO COM ANSIEDADE Ñ TER MAIS QUE CUMPRIR HORÁRIO SABE ASSIM SEM COMPROMISSO???
    ACHO QUE VOU GOSTAR,VOU ESCOLHER UM LUGAR DE PRAIA PARA MORAR, E VER A VIDA PASSAR OLHANDO O IR E VIR DAS ONDAS DO MAR!!!RSRS
    FALTA POUCO...

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  3. É preciso desacelerar Helô, e aprender a relaxar e não fazer nada às vezes, faz um bem danado!!!! Gosto tanto do seu blog, sempre dou uma espiadinha, me sinto "em casa"!!! Bjos querida!!!!
    Marisa

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  4. Oi, Helô,

    Eis aí um assunto que renderia até tratados antro-psico-sociológicos, rsrs. Em primeiro lugar porque a questão do ser produtivo e objetivo se mistura de tal forma ao caráter da pessoa, que abrir mão disso é quase uma impossíbilidade. Esta, aliás, é uma das maiores causas dos conflitos (encobertos) entre as várias culturas do mundo, pois os mais produtivos sempre estiveram à frente dos menos, no que se refere ao progresso material e outros; e sabendo que se esforçam para tanto, os produtivos não condescendem com quem não faz o mesmo.
    Quanto ao trabalho doméstico, este é, talvez, o mais volumoso, repetitivo, diversificado e cansativo trabalho do mundo, mas geralmente quem o realiza não obtém o menor reconhecimento, apesar da grande importância que ele tem para todos nós. Este é um dos grandes paradoxos do mundo: um dos trabalhos mais importantes é o menos valorizado!
    Por fim, eu acho que a aposentadoria deve ser preeenchida também com trabalhos sistemáticos, seja um programa de leituras, cursos de arte/artesanato, trabalhos voluntários, enfim, cada um escolheria fazer o que sempre quis fazer e não teve tempo, enquanto trabalhava, rsrs.

    Um beijo.

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  5. Amiga, que text reflexivo espetacular!
    Amei!
    Estamos por aqui a um passo desta nova realidade e sinto que para meu marido será um tanto quanto difícil, por isso muito a ler e aprender para que diante desta nova situação não se sinta perdido. Vou mandar pra ele teu link, adorei!
    Você é uma pessoa que soube aproveitar muito bem todos estes momentos, te parabenizo e admiro.
    beijos grandes cariocas, muitos.

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  6. Heloísa, eu me dou o direto de não fazer nada em certos dias. Mas não me desocupei totalmente, pois olho a casa de minha mãe e olho a minha neta, algumas horas no dia.
    Trabalhei poucos anos fora de casa, mas sempre fui "pau pra toda obra", embora sempre tenha tido ajudante. Mas como diziam, tinha dias que trabalhava mais que ela...
    Depois que os filhos casaram, fiquei 3 anos na vida boa, sem sentir remorso nenhum em ficar à toa várias horas do dia
    Depois, com a volta da filha e já com a neta, tudo entrou num ritmo alucinante, que há dias que quero pedir socorro!
    O ideal é usar o tempo ocioso saindo de casa, senão o descanso é pouco...
    Beijo!

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  7. Quando precisei "desacelerar", e no meu caso foi frear e parar de "soco" mesmo, pelo meu problema de saúde, me fechei por completo.
    Quase caí numa deprê e me tornei insuportável a mim mesma. Não foi fácil aceitar. Não havia assunto que eu desejasse discutir, muito menos jogar conversa fora. Ainda bem que tinha outras atividades e que pude voltar aos poucos.
    Não conseguimos parar mesmo. E como meu pai dizia "temos tão pouco tempo para fazer tanto, ainda bem".
    Bom domingo e feriado.

    Bjs no coração!

    Nilce

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  8. Os meus pais estão os dois aposentados mas sempre arranjam algo para fazer... incrível como o ditado faz sentido: "Parar é morrer!" :)

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  9. Sempre é bom parar e prestar atencáo em si, beijo Lisette.

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  10. Bem, tema muito bom. A solução vc mesma já apresenta: sempre é tempo para treinar. Essa postura realmente demanda um treinamento. Porém, há um treinamento sem esforço, que vem apenas da observação das crianças, como vc mesma já diz. Basta vê-las feliz, apenas por viver o presente, por fazer castelinhos e brincadeiras de imaginação, sem qualquer intenção, planejamento ou resultado, que podemos aprender com elas e repetir esse bem estar. É um estar bem sem grandes razões ou produções, no nosso dia-a-dia, em cada momento presente, apenas por estarmos vivos.
    Aprenda!!! Ainda está em tempo! Pode viver com esse prazer genuíno cada segundo.

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