segunda-feira, 8 de junho de 2015

Minha mãe não me disse.



Tive uma longa convivência com minha mãe. Ela se foi há quatro anos e meio, prestes a completar 98 anos. Convivência feliz e valiosa.
Ela me ensinou a ser mãe, e a amar o próximo como a mim mesma. A ser verdadeira e solidária. Me ensinou a responsabilidade e a persistência. Me passou valores importantes. Me ensinou trabalhos manuais e a arte da cozinha.
Me preparou para a vida.
Mas minha mãe nunca me disse que chegaria um dia em que eu teria dificuldade para prender as presilhas laterais dos sapatos. Nem que eu teria que procurar a melhor posição para vestir determinadas roupas. Também não me disse que seria complicado levantar um pé, equilibrando-me no outro, para lavá-los num bom banho de chuveiro. E que seria bom tomar cuidado para não deixar o sabonete cair no chão. Não seria fácil tê-lo de volta.
E, embora soubesse bem, não me alertou sobre a hora em que eu acharia muito difícil, quase que impossível, colocar meias elásticas, quando delas precisasse. Nesse item ela até me passou um recado, mas eu não entendi. Ela, que usara meias elásticas durante grande parte de sua vida, deixou de usá-las de uma hora para outra. Questionei-a, mas ela não me disse o motivo. Disse simplesmente que não mais queria usá-las.
Hoje, aprendi sozinha, que com as limitações físicas da idade, é quase impossível colocá-las sem ajuda.
Nada disse sobre outra série de ações, realizadas quase que automaticamente e que, com a passagem do tempo, demandam atenção e até esforço.
Por que não me disse?
Já sei. Ela nada me disse porque, no seu pensamento e coração de mãe, não imaginava que sua filha, algum dia, fosse envelhecer.

Foto em 19/01/2006. Aniversário de 93 anos.

9 comentários:

  1. Olá, querida Helo
    Seu texto emocionou-me... muito lindo!!!
    Também não aprendi com a minha a envelhecer...
    Seja feliz e abençoada!!!
    Bjm fraterno

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  2. Que lindo e tão doce,Heloísa! E quantas coisas o tempo vai nos fazendo perder a capacidade de fazer com facilidade,não é? Lindo te ler e adorei essa foto e a frase final.Realmente para as mães, os filhos não envelhecem! bjs, linda semana, sempre bom te ver! chica

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  3. Heloísa, que texto!
    As mães são sábais, embora às vezes tão frágeis...
    Elas nos ensinam o essencial, para que possamos ficar de pé na vida.
    Elas não imaginam sequer que ficarão velhas, como pensar que suas "meninas" e seus "meninos" o serão, algum dia?
    A minha está aqui, de corpo presente, mas já não se preocupa com coisas corriqueiras, como calçar as meias, mesmo que não sejam as elásticas...
    Beijo.

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  4. Oi, Helô,

    O texto resultou numa homenagem à sua mãe, rsrs. Acho que as mães realmente não conseguem imaginar os filhos idosos...

    Um grande beijo e boa semana!

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  5. Olá Heloísa.
    Bonito texto! Concordo com o que várias pessoas já disseram: as mães não imaginam os seus filhos idosos...
    Bjs

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  6. Pois eu já acho que as mães não só imaginam o envelhecimento dos filhos como ficam temerosas porque não estarão mais disponíveis para ajudá-los e cuidar deles. O não falar das dificuldades acho que faz parte do aprendizado do envelhecimento, um exercício solitário. Também uma precaução para não ganhar o selo de "queixosa".

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  7. È mesmo, Helô, a gente nem imagina como nossas mães conviveram com a velhice.Quantas coisas passam despercebidas..É por essas e outras que mãe é tão especial.
    Bj,
    Lylia

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  8. De este escrito solo se me ocurre decir: ¡qué bonito, qué tierno, qué real!

    Dices que estuviste en Holanda, nosotros lo hicimos a principios de junio, tenemos a un hijo que vive en La Haya (Den Haag) y vamos con frecuencia a visitarlo. Holanda en un pais encantador, lleno de gente amable y TOLERANTE, un pequeño y bonito país. Un beso Heloisa y hasta pronto. Repito, tu escrito me ha enternecido

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  9. Querida Helô,
    Texto singelo e emocionante. Sim, envelhecer é adaptar-se a novas mudanças. Fácil? Nem sempre. Mas... com certeza, abençoado. Porque estamos tendo a oportunidade de envelhecer.
    Não nos deixe de agraciarmos com seus posts. Sempre inspirativos, por vezes reflexivos. Lembre que as limitações são físicas. Mas as sementes altruístas da vida, você continua e muito semeando. Um abraço fraterno de quem muito a admira...

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