sábado, 2 de maio de 2015

Histórias a bordo


Até agora, 13 dias a bordo. Desses, passamos seis sem avistar terra.
Acho uma delícia!
O conforto do navio, a presença constante do mar, sua cor linda, seu balanço suave, a programação musical. E, ainda, a percepção de que não se está com muita idade para enfrentar viagem longa. Olha-se para os lados e observa-se, com facilidade, pessoas bem idosas. Bem mais idosas do que nós dois. Todos, procurando viver bem, enquanto vivos.
1800 pessoas, juntas, atravessando o Atlântico. E com esse número tão grande, nem sempre é fácil o reencontro. Conhece-se alguém, troca-se ideias e passa-se dias sem cruzar com essa mesma pessoa. Às vezes, não se encontra mais.
A única ocasião em que o grupo é fixo é a do jantar. A mesa é a mesma, durante todos os dias, assim como as pessoas.
Isso permite um contato mais próximo e, até, o surgimento de amizades.  
As outras refeições podem ser feitas em lugares diferentes, em horários diferentes e com pessoas diferentes, a cada dia.
Isso permite que se conheça uma variedade bem grande de pessoas, com origens diversas, cada uma com sua interessante história de vida.
Arthur, Cecília, Ida, entre outros, me encantaram com suas histórias, e garantiram boas conversas.
Arthur, brasileiro, com 85 anos, viaja com sua mulher norte-americana, a elegante Silvia. Casados há mais de 30 anos, formaram uma grande família, com os 4 filhos dele, 3, dela, e os 20 netos. Conheceram-se nos Estados Unidos, onde ele, então viúvo, vivia com os filhos pequenos. Moram há muitos anos no Brasil, com os filhos lá e cá. Além desse romance interessante, o que me chamou atenção em Arthur foi seu rosto. Olhava para ele, lembrando de alguém.
Passado um tempo, identifiquei. Arthur lembrava muito meu tio Arthur, irmão da minha mãe, já falecido.
E daí, o inusitado. Entrando numa rede social, fui surpreendida por uma foto do meu tio Arthur, que havia sido colocada por um seu neto, exatamente naquele dia. Registrei-a, e ao encontrar com meu companheiro de viagem, contei-lhe o ocorrido e mostrei a foto. Então, ele me disse: seu tio é muito parecido com meu avô materno.
Cecília é uma senhora delicada, elegante e muito simpática. Pediu para sentar-se na nossa mesa, durante um almoço, e pudemos conversar bastante. É chilena, viúva, e está viajando com uma amiga. Não sei sua idade mas, por sua história, deve também ser octagenária. Teve 9 filhos, tem 28 netos e mais de 20 bisnetos. Lembrei muito de minha mãe, que teve descendência semelhante.
Cecilia, alegre, forte, me mostrou como as avós, e bisavós, dos tempos atuais podem manter o vigor e a alegria de viver.
E por falar em alegria de viver, me impressionei com a Ida.
Eu ouvira falar que, entre nós, havia uma cadeirante que estava viajando sozinha. Num final de tarde, em que estávamos aproveitando  o som de uma banda para dançar um pouco, vi uma cadeirante, com os olhos vivos e um ar feliz, acompanhando o movimento do salão. Fui falar com ela.
Ida convive desde criança com sequelas graves de poliomielite. Aprendeu a viver muito bem com seus limites. Estudou, trabalhou, criou filho e, agora aposentada, está aproveitando para viajar.
Sim, viaja sozinha. Sua cadeira é motorizada, e ela tem completa autonomia. Ainda não tem 60 anos, e sabe que, pela progressividade, terá uma piora no seu estado físico. Já está percebendo essa degeneração, mas está preparada para isso. Encontrou um médico fantástico, chamado Acary, que lhe passa muita tranquilidade. 
Nesse momento, confirmei. Esse mundo é mesmo pequeno, pois Acary é meu primo.
E Ida me mostrou, com calma, toda a força que se pode ter para se enfrentar com fé, e alegria, os limites trazidos pela vida.
Adoro cruzeiros. 


5 comentários:

  1. Que lindos relatos, encontros e histórias de vida que essa viagem te oportunizou! Deve ser lindo estar aí! E ainda a coincidência do primo? Que coisa! Aproveitem bem! bjs, chica

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  2. Viajei na sua história, meu sonho é fazer um cruzeiro...

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  3. Olá, Helô,

    O maior encanto da vida é mesmo as pessoas e você sabe relatar os seus contatos com elas de forma maravilhosa! Que deleite este relato, parabéns querida!

    Um beijo e bom domingo

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  4. Belo , adorei!!Você escreve com leveza e muito sentimento!!Muito bom mesmo nosso Cruzeiro e mais ainda conhecer vocês!!Parabens!!

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  5. Adorei ler sobre nosso Cruzeiro e sua maneira de escrever é leve e cheia de sentimento!!Foi muito bom conhecer vocês!!

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