terça-feira, 3 de junho de 2008

Daqui nasceu o Blog da Vovó

Outro dia, minha filha Priscila publicou no seu blog “Nós duas” um texto escrito por minha mãe, quando ela tinha 86 anos de idade. Nesse texto ela falava sobre sua infância, sobre as brincadeiras das crianças nas ruas, sobre a lealdade das empregadas domésticas, sobre a facilidade para as compras da casa (pão, leite, verduras, tudo era oferecido na porta das casas), sobre as cadernetas para anotar os gastos nas vendas etc.
Esse texto provocou vários comentários feitos pelas jovens mamães leitoras do blog “Nós Duas”, quase todos no sentido de que antigamente dava para ter mais do que um filho.
Resolvi, então, enviar o e-mail abaixo para minha filha, e ela decidiu publicá-lo no seu blog. Esse texto recebeu muitos comentários, e foi daí que surgiu a vontade de criar o Blog da Vovó. Embora longo, peço licença para publicar. É que acho importante relatar aquilo que provocou o nascimento do meu blog. Prometo que os próximos posts serão menores. Tentarei.

“Pri,
O texto escrito por sua vovó Norma é muito lindo, e remete a uma época de muita tranqüilidade. Ela viveu com seus pais, e quatro irmãos, na Santos antiga. Casou aos 18 anos e teve nove filhos. Meu Deus! Já imaginou criar 9 filhos ? E criar bem? Para que todos os comentaristas do seu blog saibam, eu sou a quarta dos nove filhos. Quando nasci, minha mãe tinha 23 anos de idade, e já cuidava de três meninos. Foi, e é, uma mãe incrível. Amorosa (ninava todos seus bebês), extremamente cuidadora ( era capaz de passar uma noite praticamente sem dormir, dando os remédios homeopáticos, com os quais nos criou, às vezes de hora em hora). Mas era uma mãe severa. Para nós era muito claro que devíamos obedecê-la. Em nossa casa havia muita disciplina. Tínhamos hora para as refeições, que eram feitas com todos na mesma mesa. Quando pequenos, hora para dormir. Quando jovens, hora para chegar em casa. Era tão cedo, que vocês não vão acreditar. Entre os ditados que muitas vezes escutávamos lembro de: “é de pequenino que se torce o pepino” e “haja alguém que nos governe”. Minha mãe acreditava na necessidade de autoridade. Achava que, quando estava contrariando um filho, estava fazendo aquilo por amor, e porque se preocupava com o futuro. Sabia que, no futuro, seus filhos teriam que enfrentar inúmeras situações difíceis e que precisariam saber lidar com as frustrações. Criou seus filhos dizendo sim, mas também dizendo não. Seria impossível criar nove filhos com atitudes permissivas e sem limites.
Hoje isso é difícil. É verdade que os tempos mudaram, e mudaram muito. As exigências são outras, a maioria das mães jovens tem uma jornada de trabalho externa muito sacrificada e, quando estão com seus bebês só querem dizer sim. Entendo que é bem difícil contrariar um filhinho nessas condições. Lembro que minha mãe comentava que era bem mais fácil dizer sempre sim para as crianças, mas que mais tarde isso teria conseqüências não muito boas. Nos nossos dias, as mães chegam cansadas em casa, com sentimento de culpa por estarem longe de seus bebês, e acham bem mais fácil concordar com tudo. Mesmo porque, quando contrariados, os pequeninos choram, e ninguém quer vê-los chorar. Lembrei novamente de minha mãe. Ela dizia : é melhor que eles chorem agora …É complicado! Mas é preciso descobrir uma forma de adaptar as ações das mães antigas aos tempos de hoje. Uma coisa eu não tenho dúvida: não se pode dizer sim a tudo, e os nenezinhos precisam ser apresentados aos limites desde cedo. É importante para os pais, mas é importantíssimo para eles. São os limites que lhes dão segurança. Eles precisam sentir que seus pais são responsáveis por eles.
Penso, também, que criar mais filhos é mais fácil do que criar um só. Quem só tem um, acaba tendo mais trabalho, justamente porque é guiado pela criança.
Não é a mãe que está guiando seu bebê, adotando disciplinas de horários e tudo mais. É o bebê quem resolve o que quer e quando quer. Quando se tem só um, dá para agir dessa forma, embora eu ache que chegará uma hora em que a mãe ficará cansada da sua permissividade. Quando se tem mais de um, e com pequena diferença de idade, a mãe precisa se organizar. É preciso ter uma rotina estabelecida. Aí entra também a questão financeira. Gasta-se muito. Todos querem fazer o máximo pelos filhos. Mas será que com mais de um filho os gastos não ficam mais equilibrados? É preciso dividir melhor.
Tive meus dois filhos com uma diferença de 1 ano e 11 meses. O Gustavo estava com essa idade, quando a Priscila nasceu. O Gustavo dormia às 7 da noite, e acordava às 7 da manhã. No meio da manhã, lanchinho, e depois uma boa soneca.
Após a fase da amamentação, a Priscila também foi entrando no horário das 7 da noite às 7 da manhã. Soninho no meio da manhã, e depois do almoço. Não foi muito fácil adotar a rotina do horário, mas também não foi muito difícil. E depois, foi uma maravilha. Será que esqueci de todo o trabalho que tive?
É verdade que nessa época eu havia interrompido meu trabalho. Na volta da licença-maternidade do Gustavo, trabalhei até ele completar 7 meses e pedi um afastamento por dois anos, sem remuneração. Quando o afastamento terminou, eu também já era mãe da Priscila e resolvi pedir exoneração do serviço. Só voltei ao trabalho quando os dois estavam crescidinhos e na escola.
Hoje, esse horário das 7 às 7, seria inviável, mas penso que cada mãe precisa descobrir qual o melhor horário para seus bebês. O que é preciso é que eles aprendam que à noite eles devem dormir. Quando a mamãe colocar na cama, não é para chorar. É para dormir. E o que eles precisam aprender, também, é que as mamães os adoram, mas que eles precisam atendê-las. Precisam ser obedientes. Êta palavrinha antiga. Será que ainda existe? “


O que vocês acharam?
Será que ainda existe a palavra “obediência” ?
Por que as mamães têm tanta dificuldade de dizer “não” ?

8 comentários:

  1. Ola! Como disse no Blog da Pri, eu concordo com cada palavra do seu texto MARAVILHOSO!
    Eu acho que as crianças hoje em dia esta cada vez menos obedientes, mas por culpas dos pais. Ate mais das maes, que hoje em dia, trabalham fora, sao muito mais independentes (salve, salve!) e com isso, se sentem "culpadas" com a ausencia e com isso, acabam sempre deixando o pequeno fazer o que querem para compensar. E acabam dizendo pouquissimo NÃO.
    Fiz um longo post falando sobre isso no meu blog e para resumir... Eu acho que cada vez que falarmos um nao, temos que lembrar do bem que estamos fazendo para o pequeno que colocamos no mundo, que demos a vida e do quanto eles dependem da gente para criar habitos saudaveis, para serem pessoas do bem, com carater, principios e limites. Eles precisam disso, muito mais do que podemos imaginar.
    Muitos beijos!

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  2. Como havia comentado quando vc mandou o email, a minha opinião segue a da Luciana. Que como as mães estão mais fora, é mais difícil falar o não...

    Sobre a palavra "obediente", "obedecer", penso que caiu em desuso nas relações familiares, pois está tudo mais democrático. Há mais acertos e combinações do que imposições. E obedecer tem uma conotação mais de submissão. E me parece que hoje os pais conquistam a confiança e credibilidade dos filhos mais na conversa, na compreensão. bj

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  3. Claro que existe , e eu não tenho problema nenhum em falar não o problema e´que eu tenho medo de dizer sim e estar errando !!!
    O Q será pior ?

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  4. Oiê.
    Tudo bem Helo? Gostei muito do seu Blog. Como voce escreve fácil!!!! Como seria bom que também tivesse esse predicado!!!
    O importante é que o texto escrito por voce é fiel ao que eu conheço.
    Parabéns. Vou procurar ler sempre e sempre.
    Bjs Berto

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  5. Tia.
    Adorei ler este texto. EU acho que falo muitos nãos para meu filho, mas são para coisas que nao são relevantes na vida.para ele, claro que é. ë o video-game. Realmente é chato ter um filho "miando" na minhas orelhas perguntado, mas por que nao??? ai ai, ninguem merece. No entanto. prefiro o NAO hoje do que o PIOR amanha!!!

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  6. Porta aberta,entrei!
    Boa iniciativa de iniciar um blog.
    Parabéns pelo blog.
    Quanto ao post...
    O mundo é mutação e as mulheres estão mais ausentes mesmo de seus filhos,mas por uma condição nova de vida.
    O grande segredo é criar hábitos para os filhos até com a sua própria ausência.
    Mas a vida é isso...nem tudo é como gostaríamos que fosse.

    Bjsss..milll

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  7. Ola! Mas que prazer ler seu blog, estou encantada, sabia?
    Meu nome e Roberta, sou uma das autoras do portal materno Minha Mae que Disse! Gostaria muitissimo de pedir sua autorizacao para reblogar um texto seu la no portal.
    Se vc nao conhece e quiser dar uma olhada sera um prazer te-la por la! Segue o link:
    http://minhamaequedisse.com/
    Voce pode me mandar algum email pra contato? Pode manda-lo pro mmqd@minhamaequedisse.com ou responder aqui nos comentarios mesmo.
    Super abraco!
    Roberta
    http://minhamaequedisse.com/
    http://piscardeolhos.net/

    Ps. Cheguei aqui atraves do blog da Sonica, A delicia de ser mulher.
    Ps2. Perdoa a falta de acentos, culpa do ipad.

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  8. _ Heloísa, hoje cheguei por aqui movida pela saudade da Norma. Você está tão parecida com ela ... "Por tabela" e por estar sempre com meu pai na Rua Eça de Queiroz, durante todo aquele período em que lá moravam vocês fui "freguesa" habitual e entusiasta daquela casa bendita.Peguei gosto e amor pela família foi pelos contatos constantes, também no Embaré. _ Sempre, no Dia das Mães, lembro-me dela ! E lhe sou grata pelos ensinamentos, pelas melodias que cantava lindamente, pela acolhida calorosa de sempre! _ até hoje tenho na memória os bolos com feitio de leque, com as fitinhas dispostas perfeitamente; do manjar com calda de vinho e de tudo o mais. ELA foi presença marcante na minha vida e também eu lucrei bastante dos seus ensinamentos e da sua Alma linda de mulher forte, corajosa, correta e constante criadora de VIDA à sua volta! Foi presença essencial na minha infância e adolescência, devo a ela muito da minha forma de ver o mundo e de viver isto._ para uma menina sozinha e ávida de conhecimentos e de pertença ela foi ( e ainda é ! ) uma Presença Marcante na minha história. Foi com ela que andei a pé todos os quarteirões da minha casa
    até a Maternidade CID PEREZ ( tentando mapressar a dilatação p'ra ganhar meu segundo filho, o Ernesto Junior. Depois saí de São Paulo e mais tarde do Brasil ... tive que me afastar por um longo período, por causa das constantes viagens e mudanças por este mundão de meu Deus. _ Mas ainda estive com ela no finzinho da sua estada por aqui: ela me reconheceu e sorriu. _ Saudadona dela!

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