sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Criando filhos

No dia dos pais publiquei um pequeno texto, com destaque para uma frase dita pelo meu pai, quando ainda estava entre nós: “Não sei como dei conta de criar 9 filhos”.

Entre os vários comentários a esse post, muitos se referiam ao fato de que antes isso era possível, mas, hoje, nem pensar.

É verdade. Essa façanha, porque mesmo naquela ocasião era uma façanha, é impossível para os dias atuais. E por vários motivos, entre os quais vida mais fácil, famílias organizadas de outra forma das atuais, mães com projetos diferentes de vida.

Tempos atrás, a média era 3 ou 4 filhos. Filho único, que hoje parece ser a regra, era exceção. Mas, poucas eram as famílias, que mesmo nos tempos mais fáceis, assumiam a tarefa de criar 7, 8 ou 9 filhos. Criar bem, dando teto, alimentação, educação, demandava muito trabalho, e muitas concessões.

Mas, sem dúvida a vida era mais simples. Não existiam os apelos comerciais, morava-se em casas com quintal, onde as crianças tinham espaço para as brincadeiras. Era mais fácil conseguir ajuda para os trabalhos domésticos, as compras eram realizadas com tranquilidade (lembro de uma verdureira que entrava com seu carrinho no nosso quintal, para mostrar seus produtos), as escolas e os serviços de saúde parece que eram mais acessíveis. 

Na fase de crescimento as crianças mais novas iam herdando as roupas dos mais velhos, os livros escolares também iam passando de um para outro. Não havia muitos autores de livros didáticos. Lembro que estudávamos História Geral e História do Brasil pelos livros do Joaquim Silva, Geografia Geral e Geografia do Brasil pelas obras do Aroldo de Azevedo. Esses livros eram adotados na maioria das escolas. Assim, mesmo que irmãos e irmãs estudassem em escolas diversas (de um modo geral as escolas não eram mistas) todos acabavam usando os mesmos livros. Isso ensinava a necessidade de ter cuidado com o livro, que era encapado logo no início do ano, e devia ser conservado sem dobras ou rabiscos.

As escolas exigiam o uso de uniformes, e isso era ótimo. Todos com roupas, sapatos e meias iguais. Assim, as crianças não precisavam de muitas roupas, nem sapatos. 

A maioria das brincadeiras não exigia gastos. Eram brincadeiras de “pega-pega”, “amigo-inimigo”, “estátua”, “telefone sem fio”, “queimada”, “amarelinha”, “pular corda”. Quando chovia, havia distrações dentro de casa. A televisão ainda não havia aparecido, e as crianças se distraiam com leitura de livros, palavras cruzadas, esconde-esconde, jogos de palavras, batalha naval. Enfim, havia muito o que fazer e, numa família grande, não faltava parceiro para os jogos e brincadeiras.

Os brinquedos e jogos infantis, adquiridos em lojas, eram em número pequeno. Lembro dos jogos do “pequeno construtor”, de “dominós”, de “palitos”, de “damas” e, para os mais crescidinhos, do “Banco Imobiliário”.

Parece que também era mais simples educar as crianças. Além de não haver as influências nocivas da televisão, e as inúmeras necessidades criadas pela propaganda, numa família grande uns iam educando os outros. Os pequenos viam os exemplos dos irmãos mais velhos, e os pais não precisavam ficar repetindo ensinamentos. Havia, também, a noção bem clara de que era necessário dividir. Isso era aprendido, praticamente, de forma automática.

E outro fato importantíssimo, para a criação de um número maior de filhos, era a presença da mãe em casa. Isso era o usual. Em primeiro lugar porque, na maioria dos casos, o trabalho do homem era suficiente para a manutenção da família, e depois porque os estudos, a carreira e o mercado de trabalho eram muito fechados para a mulher. Com tantas limitações, a mulher, de um modo geral, não tinha projetos profissionais e procurava sua realização dentro de casa. Quando precisava colaborar com as despesas domésticas, exercia trabalhos dentro de casa, ou outros considerados femininos e, comumente, num único período do dia.

Hoje, principalmente nas capitais e grandes cidades, a vida é agitadíssima. Quase todos vivem em apartamentos, a publicidade mexe terrivelmente com a cabeça das crianças (e dos pais também) criando mil necessidades, as escolas são caras, assim como os planos de saúde, os pais querem dar tudo (e mais alguma coisa) para os filhos, as mães querem e precisam trabalhar, o trânsito é caótico, dificultando as compras e tudo mais. Sem falar, também, que a organização da família mudou muito. Por tudo isso, concordo com as comentaristas que disseram ser impossível criar muitos filhos hoje em dia. A tarefa ficou bem mais difícil. Mas também acho uma pena o filho único estar se transformando em regra.


Imagem daqui.

18 comentários:

  1. Muito boas estas lembranças, e do meu pai, tenho o maior orgulho, ele foi "pãe" durante 6 anos e com 5 filhos nas idades de 0 (eu) a 5 anos, já que mamãe morreu quando eu nasci, depois teve a sorte, dele e nossa de se casar com ela , a quem eu considero a minha mãe querida. E com um detalhe, ele foi "pãe" , antes do celular, do micro ondas, da Internet...e de outros facilitadores atuais rsrs

    beijo e um ótimo final de semana!

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  2. Como é bom estar aki novamente, espero que agora a empresa pare de cortar o acesso aos blogs. Adorei o post, sinto saudade da minha infância, os pais tinham em média 3 filhos, mas também não tinhamos muitos brinquedos, não havia tanto consumismo e éramos tão felizes assim mesmo, minha mãe ficava em casa, mas não me lembro muito dela brincando com a gente, irmão brincava com irmão e com os primos. Hoje em dia é um corre corre mesmo, praticamente todas as mães trabalham fora e quase todas as crianças vão muito cedo para a escola, quando não vão geralmente ficam com babás, o consumismo é grande e nós mamães ansiosas por suprir a falta da presença os enchemos de presentes para justificar o porque de trabalharmos. Mas o remorso, o sentimento de culpa é algo que nos persegue sempre (pelo menos a mim). Mas por outro lado, brinco com a minha filha muito mais do que minha mãe brincou comigo, tento aproveitar cada segundo quando estou com ela, talvez por ser filha única. Quero aumentar a familia e ter mais UM filho, mas ainda estamos pensando, hoje em dia dá medo de ter mais filhos, tanto pelo questão financeira e até pela violência que está o mundo de hoje.
    Como sempre, parabéns pelo post, adoro lembrar de um passado tão gostoso e feliz que tive na infância e seus post sempre me fazem lembrar.
    Bjs e aparece no blog!

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  3. A vida era outra, sem dúvida, Heloísa. E isso é que tornava possível tantos filhos. Meus pais tiveram 10, criaram uma neta da idade da última filha, tida como filha mesmo, então minha mãe "briga" e diz que tem 11 filhos. Tudo era melhor. Com todas as "mordomias" que temos hoje, acessos fáceis ao mundo todo, tecnologia a torto e a direito, ainda assim nos "anos dourados" foram melhores. "Dourados" pra cada um com sua época. Os meus dourados foram os 70...Que de criança e adolescente pouco me lembro. Bj

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  4. Nossa que época boa, me lembre perfeitamente de todos esses relatos, minha mãe antes de casar trabalhava em uma empresa que admitia só mulheres mais qdo elas casavam saiam, teve só duas filhas e não era muito de brincar, mais minha tia fazia essa parte, muito disposta e adorava criança, como é até hoje, perto de completar 70 anos, falo que ela tem mais disposição que eu, rsrsrs.
    Meu marido como foi filho unico pensa muito e nao quer a Mariana sozinha nesse mundo, acho que ele tá certo.
    Beijos

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  5. Oi, Helô!
    Quantas vezes já pensei sobre isso e fiz esta comparação também. Meus pais tiveram 3 filhos e minha mãe cuidava da gente em casa, mas brincávamos entre nós e amiguinhos.
    A Danny falou uma coisa que achei bem relevante, pois apesar da culpa das mães trabalharem fora hoje em dia, compensam brincando e fazendo mais os gostos dos seus filhotes.
    Os dias de hoje estão complicados e até mais fechados para que as crianças se desenvolvam nas brincadeirinhas em casa ou nos condomínios, temos muito medo de tudo e aí as crianças acabam só se relacionando nas escolinhas e durante a semana. Quase não brincam em casa mais e isso leva-os aos jogos virtuais e cedo para a frente dos computadores.
    Não sei como será o futuro delas nem posso afirmar se isso gerará adultos com problemas psicológicos.
    Fico compeninha quando vejo menininhas brincando com seus brinquedos sozinhas ou com os adultos de casa, sem poderem interagir com suas panelinhas e bonequinhas como a gente fazia antigamente.
    beijo grande carioca

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  6. Helô, a vida da mulher, nesta época, era muito mais difícil. Não tinha máquina de lavar, nem comida industrializada... Mas com certeza, a qualidade de vida era infinitamente superior. As crianças tinham irmãos para compartilhar tudo, tinham quintal para brincar... Tenho 32 anos e somos 5 irmãos. Também usávamos roupas uns dos outros, e livros. Te confesso que sofri um pouco com os livros porque meu irmão mais velho era relachado e eu tinha que usar o livro com orelhas. Mas tinhamos muito espaço para brincar... E a comida da nossa mãe, era a melhor comida do mundo!
    Um beijo e bom final de semana

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  7. Lindo e perfeito seu texto!
    Era exatamente assim e acho que éramos masi felizes.Pouco nos bastava, mas não faltava a preocupação com o próximo,o respeito, a lealdade, a humildade, a honestidade, a paz e tínhamos mais amor. Violência, era rara e hoje é tão comum. Crescíamos tendo obrigações desde pequenos,mas brincávamos muito mais (inclusive na rua ). Confiávamos mais nas pessoas. Vida tranquila que se foi... e hoje vivemos num turbilhão. Parabéns pelo seu texto, e pelo seu blog que sempre venho visitá-lo. Agradeço por compartilhar textos e imagens tão belas e significativas.
    Bj

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  8. Pois é Heloísa....chamamos isso de "evolução" ou "involução"??
    Quando criança conhecia todos no meu bairro, hoje mal sei quem é meu vizinho de porta (do apartamento).
    Eu penso no que seremos daqui há 20, 30 anos.....
    Beijinhos e ótimo final de semana!

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  9. Me identifiquei total!
    Minha infância foi parecida com a tua, minhas experiências, lembranças...
    Adorei!

    Ah! Teria tido uns 4 filhos, mas meu marido (agora ex) não concordou. Amei a maternidade e estou adorando ser avó!

    Beijão!

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  10. Helô,
    ler o texto me fez lembrar da minha infância, que não faz tanto tempo assim e era tão diferente de hoje...morávamos numa cidade de praia, num bairro mais afastado do centro e éramos 4 filhos e um primo sendo criados juntos. Quantas brincadeiras, não dava tempo de fazer tudo que gostaríamos. A TV era para os dias chuvosos ou quando estávamos doentinhos...o gostoso era estar no quintal, na praia, andando de bicicleta, jogando queimada e outros tantos jogos! Infelizmente a escola já era cara, assim como o vestuário e livros...e não me canso de agradecer aos meus pais por terem nos proporcionado o melhor que havia. Aulas de línguas, danças, intercâmbio, como conseguiam? E ainda viajávamos sempre...
    Também fico triste com famílias tendo somente um filho, não sou exceção...mas estamos pensando em aumentar...
    Adoro seus textos e a maneira singela como escreve!
    Beijo grande!

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  11. Olá amiga
    Que saudades do meu pai, pois é revi-me no seu post eu também tenho uma familia grande e é como diz os manuais escolares passavam de uns para os outros, assim como as roupas, e calçado. E tivemos uma infância muito feliz qualquer coisita ficava-mos tão felizes, hoje é tudo tão dificil, as crianças têm tudo nunca sabem o que querem nunca estão satisfeitas com o que têm, aí a culpa também é nossa, nós é que os estragamos ao dar-lhes tudo.
    Beijo

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  12. Helô, é sempre uma delícia vir aqui e descobrir esses textos que me falam tão profundamente.
    Éramos 3 crianças na casa dos meus pais, mas tínhamos muitos primos, quase 40. Brincávamos muito, o medo não assolava a nossa vida, mas o tempo muda e a gente tem que ir se adaptando.
    Uma vez assisti a uma entrevista com a Fátima Bernardes, na qual ela dizia que, hoje em dia, o sentimento de culpa da mãe vem junto com o nascimento dos filhos, no sentido da mãe sempre achar que não dá toda a atenção que os filhos merecem, já que têm jornada dupla... São coisas que temos que conviver.
    Os valores, os ensinamentos, a qualidade do tempo dedicado a eles, em contrapartida, são fundamentais para a formação de pessoas do bem.
    Bjs.

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  13. Heloisa, a verdade é que mudou tudo: a família, o casamento, o relacionamento, a relação com os filhos. Coisas mudaram para melhor, outras para pior. A ausência da mãe de casa é terrível. E a economia do mundo também já não permite um grande número de filhos. É a vida como ela é agora, não tem jeito. Vamos usufruir da melhor maneira.

    Beijos!

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  14. Oi Helô, tudo bom?
    Menina é mesmo se olharmos pra trás como eles conseguiam?
    Somos em 5 irmãos, e me lembro que naqueles tempos todas as famílias eram numerosas, raros eram os filhos “únicos”, ou seja que vc pudesse programar sua prole.
    Tem aspectos bons e ruins dos velhos tempos, poderia até ter sido uma infância saudável,em termos de alimentação, sem fast food, mas leitura e brincadeiras ao ar livre.mas com muita dificuldade pra sustentar e educação.
    Sou mais os tempos atuais, com acesso a informação e métodos contraceptivo, você programar sua família dentro da sua condição financeira pra dar o melhor aos filhos.
    Sendo assim a mulher foi a luta, deixou de ser dependente do marido, dona de casa e criar filhos, para se realizar também profissionalmente.
    O ideal é mesmo ter um casal, ou dois filhos. Mas daqui pra frente, creio a tendência é ficar no filho único, se vc pensar lá na frente, já viu o preço duma faculdade?
    É querida isso é papo, pra horas...Bjss

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  15. Heloisa,
    faço parte de uma família em que os meus pais tiveram 8 filhos. Tive uma infância tranquila, morava em uma fazenda linda no interior de Minas. Minhas lembranças dessa época são maravilhosas e me preparou muito para a vida que tenho hoje. Quando meu filho nasceu ficava pensando: como eles conseguiram criar todos nós? Meus pais são verdadeiros heróis. Atualmente isso não seria possível.
    Tanto é que tenho um filho só...e minha vida é uma loucura!!
    Bijos querida!

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  16. Nossa, Helo... nem fale!!!
    Meu pai teve 11 irmãos e minha mãe teve 8... então tenho muitos tios e primos e acho isso muuuuuito bom!
    Mas eu por exemplo, estou no caso de ter filho único, pois ele passa o dia com a babá e os meus pais.
    Enfim... eu não consigo nem curti-lo direito, né?
    Uma pena... pois eu adoooooro mesas grandes, muita gente em volta e crianças correndo prá lá e prá cá...
    O bom é que temos uma turma grande de amigos que vira e mexe se reúne prá suprir essa falta das grandes famílias...
    bjo e uma excelente semana prá você!!!
    Rô Gratão

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  17. OI Heloisa tudo bem?
    Adorei seu post, temos a mesma forma de pensar... como era seguro, acesso a hospital, tudo ...!!!como mudou .. a vida tá cada vez mais díficil, é um agito só.. e como vc disse as mães precisam trabalhar porque o pai sozinho não consegue dar conta das contas.. e fico imagina Helô como será a vida dos nossos filhos..
    Bjusss e boa semana pra vc

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  18. Olá, aqui estou eu novamente... Já virei fã desse blog, mas como ainda estou começando com isso, confesso, ainda fico meio perdida!!! rsrsrsrs Adoro as suas histórias... fazem-me lembrar de minha avó e da vida quando era criança... Tenho dois filhos (os meus "anjinhos"), mas ainda planejo mais um... Dizem que sou corajosa, mas se eu realmente fosse, gostaria de ter seis ou oito!!! Adooooro família grande, sempre sonhei com isso... mas concordo que hoje é muito difícil dar uma condição mínima (saúde, educação, lazer e etc) para crianças com esse apelo da mídia tão massacrante... Mas isso não me desanimou para ficar com um filho único apenas... rsrssrsr
    bjs
    Simone Aline

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